ENTREVISTA À REVISTA MÁXIMA EM FEVEREIRO 2024
23 DE FEVEREIRO DE 2024Maria João Veloso
No ano passado, Cristina Carvalho foi indicada para o prémio sueco Astrid Lindgren. Em dezembro de 2022, lançou um livro sobre o místico irlandês W.B. Yeats – Onde Vão Morrer os Poetas. No ano anterior, recebeu o Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel Torga com a obra Ingmar Bergman – O Caminho Contra o Vento. Com 23 livros no curriculum, 12 deles no Plano Nacional de Leitura, e um percurso literário invejável que principia em 1989, ser filha dos escritores António Gedeão e Natália Nunes é um dado incontornável da sua biografia, mas pequeno para defini-la.
Porque escolheu Paula Rego para este livro?
Porque é uma pessoa de que gosto. Nunca a conheci ou falei com ela. Imaginava-a da forma que a descrevi. Acho que o desenho que fiz dela na minha cabeça corresponderia certamente à figura dela. Da mesma maneira que escrevi sobre outras pessoas de quem gosto imenso. (fala de Selma Lagerlöf, Ingmar Bergman, Yeats ou Strindberg). Tudo morto já.
Quando viu o filme Paula Rego, Histórias e Segredos realizado pelo filho Nick Willing saiu de lá lavada em lágrimas. Lembra-se do que a marcou mais?
O filme é muito bom. Está muito sensitivo e muito bem feito. Percebe-se que o filho gostava muito dela. Mas não sei se a conhecia tão bem como eu. Como estou de fora, vejo coisas que os que são do mesmo sangue não conseguem ver.

No capítulo do livro que refere o filme fala de melancolia. Foi o sentimento que o filme lhe suscitou?
Além da beleza e da compreensão do filho – que acho total – para com a mãe. Depois o que resta? Resta um sentimento de perda e de desaparecimento. Esfuma-se no ar aquela imagem. Ficou-me só a ideia do filme e o que me emocionei ao vê-lo.
Foi visceral?
Exatamente. A melancolia surgiu a seguir.
Partiu do filme para escrever o livro Paula Rego – A Luz e A Sombra?
Não. A ideia partiu da admiração e curiosidade que tinha em percebê-la. O filme (2017) ajudou-me, mas também entrevistas que Paula Rego deu e outras leituras que fiz. Pedi coisas emprestadas e outras vieram parar-me às mãos.
Dedica um capítulo ao quadro A Dança, um marco na carreira da artista…
É neste quadro que ela assume que foi enganada pelo marido. Mas acho que a cisão entre ela e o marido (Vic Willing) foi permanente. Tanto o marido a enganava, como ela o enganava a ele. Sei que é mais aceitável que o marido a enganasse, mas ela também tinha os seus casos.
A voz narrativa do livro é da própria Paula Rego. Às vezes parece que se está a ouvir a voz dela…
Quando se fala sobre a minha escrita ou das pessoas sobre quem escrevi, acham que é uma transposição. Eu passo-me de facto para aquela pessoa. Saio de mim e avanço para aquela pessoa. Atenção que escrevo romances biográficos, não tenho espírito de investigadora. Julgo que sinto o que a pessoa sentiria. É a segunda mulher – a primeira é Selma Lagerlöf – sobre a qual escrevo. Os restantes são homens. Mas sejam homens ou mulheres, sinto o mesmo. Gosto de ir aos seus sítios. Gosto e vou. No caso da Selma, fui três vezes a casa dela na Suécia. Se assim não fosse, não me conseguiria transportar para dentro da personagem. Quero deixar claro que não estou aqui a pôr nenhum caso de transcendência ou de mística.

A Ericeira e o oeste de Portugal são alguns dos cenários do livro. Ainda há paisagens daquele tempo?
A quinta (de Paula Rego) já não existe. Resta apenas a casa. A quinta tinha 11 hectares e hoje está povoada de guindastes, prédios e uma grande superfície comercial ao lado. Não há nada daquela paisagem. A Paula Rego é uma artista planetária e não há um único sinal de que tenha passado pela Ericeira.
A mulher e o aborto são abordados de forma descomplexada no livro. Há uma descrição terrível no capítulo “Uivos do mar”.
Era o que se passava. Estou a falar dos anos 60. Qual a minha opinião sobre o aborto nos dias que correm? Hoje há uma série de facilidades que não havia. Hoje só se engravida se se for muito distraída ou por um acaso. Na altura numa vila de pescadores era totalmente diferente. A Ericeira nos anos 60 não tinha interesse, socialmente falando. Era um lugar muito fechado. Mas voltando ao tema aborto, conheci pessoas que tendo filhas, iam com elas fazer abortos. Não sei se hoje há resíduos sociais ou morais na cabeça das pessoas. Nem sei como evoluiu para a vida social dos nossos dias. Quando eu tinha 14 anos (há 60 anos), a minha mãe levou-me a um ginecologista para tomar a pilula. Na época ninguém punha uma filha a tomar a pílula. A minha mãe explicou-me tudo. Se fosse com uma filha minha, eu ensinar-lhe-ia tudo para que não acontecesse uma chatice dessas. Nem digo moralmente, porque na minha opinião, as moralidades são um bocado treta. Nos anos 60 estamos a falar de pessoas sem instrução que tinham filhos uns atrás dos outros. Mulheres que tinham relações sexuais sem precaução com certeza que engravidavam. O que faziam depois? Iam para a praia fazer desmanchos.
A Paula é icónica na medida em que há um referendo pela despenalização e ela assume os abortos que fez, sendo parte de uma elite.
Esta assunção dela – ao vir de onde vinha – dos abortos é de um valor extraordinário. Porque ninguém falava disso.
E o entrar nessa luta. Com aquela série das mulheres com os baldes, está a põr os pontos nos Is.
Ela era muito corajosa. Não tinha medo nenhum, socialmente falando. Mas temos que notar que ela foi educada numa sociedade que já estava fora destes problemas há muito tempo. Desde os 17 anos que vivia sozinha em Londres.
O pai manda-a para lá porque a mãe era controladora.
Exatamente. (Risos) Ela passa a viver num ambiente em que tem acesso a uma educação completamente diferente da salazarenta. Aí passa a ver a vida de outra maneira.

No livro também fala sobre as depressões dela.
A Paula Rego é absolutamente corajosa, sem medo de nada. Estou a imaginá-la a pensar e a falar sobre todos esses assuntos abertamente. E como não escrevia, pintava. Tudo aquilo está ali: os esgares, as figuras retorcidas, os baldes (na pintura dela). Só não percebe quem for estúpido. Porque é evidente e fantástico. Foi de facto muito corajosa.
No referendo de 1998 não se conseguiu despenalizar o aborto. Era muito mal visto. Hoje a igreja ainda não o vê com bons olhos.
Ora, era mesmo do que ia falar. Temos sempre a igreja por trás. Vivemos a 50 quilómetros de Lisboa, mas as procissões são como há 100 anos. Vai tudo a bichanar atrás do padre durante cinco quilómetros.
Acha que é possível distinguir a Paula artista da mulher?
Não, acho que não. A mulher é a artista e a artista é a mulher.
No filme Paula estabelece um diálogo muito íntimo com Nick Willing e abordam temáticas que normalmente não são discutidas entre mãe e filho…
Penso que depende da mãe e do filho. Da personalidade de cada um. O meu filho do meio é psicólogo clínico e falo com ele à vontade sobre tudo. Sempre falei, era ele ainda estudante. Coisas que nunca falei com a minha filha. Não acho assim nada de extravagante. Depende da mãe e do filho. E se os dois estiverem na mesma onda e acharem natural, falam sobre qualquer tema.
O que lhe trouxe o livro como experiência pessoal?
Cada linha que se escreve é uma experiência. Cada palavra. Estive para desistir. Todos os dias pegava na descrição que estava a fazer e dizia: “não escrevo mais nada”. Não era: “não consigo”. Era: “não quero.” Desgasta imenso. O tipo de escrita de um romance biográfico nada tem a ver com os outros. Este livro, em particular, custou-me muito a escrever. Não sei explicar muito bem porquê. E isso também é um drama.
“Este livro, em particular, custou-me muito a escrever.”
É um drama ou um mistério?
É um mistério, não é nenhum drama. É um bocado misterioso, só tem um termo de comparação que são os outros livros que escrevi sobre escritores e artistas, pelos quais não sofri nada. Quando escrevo os meus livros ponho os auscultadores e oiço rock aos berros. Desta vez não consegui arranjar nada com que me identificasse musicalmente. Não ouvi nada e isso perturbou-me imenso.
O que gosta de ouvir?
Por exemplo, The Pogues. Os Beatles, que acho geniais. O Freddy Mercury, outro génio. Também gosto muito de Cranberries.
Como é o seu processo de escrita?
É o que for, o que me estiver a sair. É escatológico. A minha hora de escrever é sempre depois das seis da tarde. Isso é uma coisa que já reparei ao longo de muitos livros. Mas não faço ideia, porque o dia é meu. Tenho muito tempo livre. Mas já tem acontecido estar a escrever até às quatro da manhã.
Nos momentos de angústia, lê, faz caminhadas?
Caminhadas odeio, só a palavra me irrita. Vou acabar entrevada porque não gosto. Não escolho os livros que leio. Leio sempre, todos os dias leio. Todos, todos, todos. Não vejo televisão desde 1978. Posso ouvir ao longe ou ver um noticiário. Não faço ideia como se liga a televisão. Não olho para a televisão, não tenho esse hábito. Vou para a cama, regra geral, muito cedo e leio. Leio desalmadamente. Até repito a leitura de muitos livros. Há livros que adoro.
Quando soube que tinha terminado o livro?
Quando escrevi a última parte da memória. Não gosto de livros grandes. Por isso 160 páginas está ótimo. Apesar de ter sido muito cansativo. Este livro não tem tido receção nenhuma, enquanto há outros que tiveram outra projeção. Pode ser que ainda saia qualquer coisa. Isso é importante a pessoa passa um mau bocado e depois gosta de ver a obra reconhecida. Como dizia Oscar Wilde, “o pior de tudo é não sermos falados”.

Escreve à mão ou diretamente no computador?
Escrever à mão está fora de questão. Ainda por cima tenho artroses severas nos dedos. Nem consigo pegar numa caneta. Há mais de 20 anos que não escrevo nada à mão. Até porque é muito melhor o teclado, para quem se habitua claro. O pensamento flui e nem sequer olho para o teclado.
Que conselho daria a um jovem escritor?
É uma pergunta difícil. Entra-se em banalidades quando se começa a falar numa coisa dessas. A pessoa sente, escritor, não escritor ou artista de uma outra arte qualquer. Porque literatura, para mim, é como a pintura, a escultura, a música, a fotografia ou a gastronomia. A pessoa sente necessidade. (suspira). Não digo necessidade, que é um bocado piroso. Não sente necessidade nenhuma. As coisas são o que são e a pessoa escreve. No outro dia estabeleci um bom paralelo entre a pintura e a literatura. São artes totalmente diferentes uma da outra. A literatura é muito difícil. Mas a pintura também deve ser. Um bom salmão no forno tem que se saber fazer, tem que se gostar de fazer aquilo, tem que se ter matéria-prima de conhecimento.
O facto de ser filha de pais escritores é uma bênção ou um entrave?
Se tenho ganho por ser filha de quem sou? Acho que não tenho. Mas repare: sou filha única de um casal cujo casamento durou 57 anos. O meu pai era 15 anos mais velho que a minha mãe. Fui educada por duas cabeças. A imagem que tenho dos meus pais é numa sala grande. O meu pai do lado esquerdo e a minha mãe do lado direito sempre a escrever. O meu pai tinha o armário e estava sempre de pé. Só se sentava para comer. Mandou fazer um armário à altura dele. Tinha um candeeiro e as canetas. Em cima da cabeça a fotografia do Einstein com a língua de fora. A memória da minha mãe é também atrás de uma secretária cheia de papéis. Passei a infância na rua, nos quintais de Campo de Ourique. O método cognitivo das crianças é por imitação dos adultos. Sentava-me no sofá e tinha uma máquina de escrever. Cresci a ver escrever e eu própria a escrever ou ler quando não estava a brincar na rua ou na escola.
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Entrevista ao jornal EXPRESSO on line, pela jornalista Luciana Leiderfarb sobre o meu livro “PAULA REGO – A LUZ E A SOMBRA” – Novembro 2023 – Relógio D’Água
“Paula Rego — A Luz e a Sombra”, assim se
chama o livro que tem lançamento marcado
para esta quarta-feira, às 18h, na Casa do
Comum do Bairro Alto. Trata-se do oitavo
romance histórico de Cristina Carvalho, que
falou ao Expresso das inquietações de uma
artista “explícita, real, comovente e, por
vezes, violenta”
06 DEZEMBRO 2023 15:42
Luciana Leiderfarb
Jornalista
Um livro é sempre o resultado de um processo. Neste caso,
de uma longa vida. “Paula Rego — A Luz e a Sombra”,
de Cristina Carvalho, editado agora pela Relógio D’Água,
está nesta categoria. Trata-se de um olhar na primeiríssima
pessoa sobre a vida da grande pintora portuguesa, com
ênfase na sua infância e adolescência, mas também sobre o
que foi, além da sua vida artística, a de todos os dias.
Vigésimo terceiro livro publicado e oitavo romance
biográfico da autora prestes a perfazer 35 anos de carreira
literária, o romance tem lançamento marcado para esta
quarta-feira, às 18h, na Casa do Comum do Bairro Alto,
com apresentação a cargo da jornalista Ana Sousa Dias.
Cristina Carvalho, filha dos também escritores Natália
Nunes e António Gedeão, foi este ano nomeada, pela
International Association of School Librarianship, para o
prestigiado Prémio ALMA 2023 – Astrid Lindgren
Memorial Award. O ano passado, dedicara a a W.B. Yeats o
volume “Onde vão morrer os poetas”. Antes, em 2021, viu
o seu livro “Ingmar Bergman – O Caminho Contra o Vento”
vencer o Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel
Torga.
“A arte de Paula Rego, tudo o que deixou à Humanidade, é
uma arte escancarada, sem subterfúgios, sem artifícios de
espécie nenhuma. Ela expôs a sua verdade, que é também a
nossa verdade”, diz ela, comovida, ao Expresso.
Há uma primeira pessoa no livro, que é a própria Paula
Rego.
Como se preparou para o escrever e como chegou
a essa primeira pessoa?
Nos romances biográficos que tenho escrito, quase todo o
livro, o relato, é escrito na primeira pessoa. Digo ‘quase
todo’ porque há situações em que eu própria intervenho e
falo com a pessoa sobre a qual estou a escrever, ou então é
essa pessoa que sente a necessidade de me interrogar. Por
que razão escrevo na primeira pessoa? É o que eu sinto.
Não me organizo nesse sentido, é apenas o modo mais
intenso da minha aproximação e, se quiser, daquilo que
respiro no momento alucinante que é uma escrita deste
género. É uma situação estranha e permite-me uma
aproximação ainda mais estranha, quase inexplicável, à
pessoa. Também costumo visitar, viajando até lá, os sítios,
os percursos, as casas, os chãos pisados por essas figuras,
tornando toda essa aproximação ainda mais intensa. Não
pretendo encontrar explicações para isto. É assim que me
acontece. Noutros livros, de outros géneros que já tenho
escrito, é tudo muito diferente. Para chegar a esta primeira
pessoa, tenho que a amar e sentir-me apaixonada mesmo,
caso contrário não conseguiria. Jamais conseguiria escrever
sobre alguém de quem eu não gostasse muito.
Porque decidiu fazer um romance e não um ensaio ou
uma biografia?
Não tenho capacidade nem paciência de investigadora para
escrever biografias. Nunca tentei. Admiro muito quem as
escreve e penso que a biografia propriamente dita é algo
importantíssimo para se conhecer, profundamente, alguém
que interesse; conhecer-se o seu envolvimento social,
cultural, terreno; conhecer-se a importância desse ser, o seu
trabalho, o seu legado para a Humanidade. Mas, no meu
caso, prefiro um envolvimento intenso, rápido e profundo,
tal como a luz de um relâmpago. Todos os meus livros
sobre pessoas – os ditos romances biográficos – analisam
com mais ou menos sentimentos, mas sempre
verdadeiramente e com conhecimento que, entretanto,
adquiri profundamente, algumas vertentes psicológicas da
pessoa, isso que faz com que alguém se torne, de facto,
diferente, por isto ou por aquilo; aspetos da personalidade
quase todos relacionados com a chamada ‘arte’ que pode
ser a música, a literatura, a pintura, a escultura, a fotografia.
No caso de Paula Rego, insisti sobre a sua infância e
adolescência, que foram determinantes na progressão da
sua arte.
Olhando para a vida da Paula Rego, que aspetos lhe
chamam mais a atenção e quis privilegiar?
No caso de Paula Rego, além da sua extraordinária
capacidade artística e respetiva realização, chamou-me a
atenção – e depois de ter ‘investigado’, ouvido, lido muito
sobre a sua personalidade – a parte da sua vida mais real,
mais verdadeira, digamos assim. Explico: quando um artista
se embrenha, começa, desponta, insiste, se esgota na sua
obra, não deixa ver nada de si enquanto trabalha, à medida
que se vai desnudando, cumprindo o seu destino de artista.
Mas existe sempre um começo. É esse começo da vida de
todos nós – no caso a da artista Paula Rego -, a infância e a
progressão da vida, que me interessou. Conheço algum do
ambiente que ela frequentou. Quis vivê-lo. Para isso tive de
o escrever. E não escrevi só para mim: escrevi-o para que as
pessoas interessadas na sua obra a pudessem ‘conhecê-lo’
um pouco melhor.
Quem é a Paula Rego? Que luzes e sombras lança sobre
ela o seu livro?
O que fica por saber sobre Paula Rego? Tudo! Nem é
possível muito mais. Refiro-me – mais uma vez – à zona
intimamente psicológica. Paula Rego foi alguém
extraordinariamente inteligente. Procurou rematar muitas
inquietações, dessas terríveis inquietações que cada um de
nós sente, através da sua pintura tão explícita, tão real, tão
comovente, por vezes tão violenta. Mas quem é que não
tem uma vida violenta? Sublima-se tudo e ainda bem, senão
a arte não existiria. A arte de Paula Rego, tudo o que deixou
à Humanidade, é uma arte escancarada, sem subterfúgios,
sem artifícios de espécie nenhuma. Ela expôs a sua verdade,
que é também a nossa verdade. E isso, para mim, tem todo
o valor. Ela viu a vida em tudo o que pintou. Ela via,
percebia, entendia tudo. Desenhou, pintou tudo,
sentimentos, atos, pensamentos, bondade e maldade. Paula
Rego, foi, existiu em tudo, em todos, em todo o lado. Está
aí. Encontrei-a, acho eu.

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ENTREVISTA COM LUÍS CAETANO NO PROGRAMA A RONDA DA NOITE -9 de Maio 2023
sobre o meu recente livro “W.B.YEATS, Onde Vão Morrer os Poetas” publicado em Dezembro 2022 por Relógio D’Água
https://www.rtp.pt/play/p1299/e690465/a-ronda-da-noite
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https://visao.sapo.pt/jornaldeletras/letras/2023-01-25-um-passeio-na-floresta-de-w-b-yeats/
Janeiro 2023
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ENTREVISTA COM LUÍS CAETANO SOBRE O MEU LIVRO “STRINDBERG, NESTE MUNDO FUI APENAS UM CONVIDADO” publicado por Relógio D’Água em Novembro 2021
https://www.rtp.pt/play/p303/ultima-edicao
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Programa À VOLTA DOS LIVROS, um programa de Ana Daniela Soares – Antena 2
sobre “ALMANAQUE DO CÉU E DA TERRA” publicado em Novembro 2020 por Relógio D’Água
https://www.rtp.pt/play/p312/e515841/a-volta-dos-livros
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Sobre “Ingmar Bergman, O Caminho Contra o Vento”
https://www.dn.pt/cultura/as-pessoas-nao-conhecem-a-face-oculta-de-ingmar-bergman-11616170.html
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Sobre “A Saga de Selma Lagerlöf” e a convite da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva em Braga – 8 de Julho 2020
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LINK da minha entrevista a Luís Caetano, ontem dia 16 Janeiro 2020, na Antena 2, no programa A Ronda da Noite, sobre o meu recente livro “INGMAR BERGMAN, O Caminho Contra o Vento” publicado por Relógio D’Água, 2019
https://www.rtp.pt/play/p1299/e450697/a-ronda-da-noite
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8 de Janeiro 2019
A Ronda da Noite
Cristina Carvalho, autora do romance biográfico A Saga de Selma Lagerlöf, editado pela Relógio d’Água, é a convidada de Luís Caetano
Link para ouvir o programa – https://www.rtp.pt/play/p1299/e383382/a-ronda-da-noite
A FORÇA DAS COISAS – (repetição) em 26 Janeiro 2019 – https://www.rtp.pt/play/p321/e386493/a-forca-das-coisas
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Uma entrevista para este jornal sueco a propósito do livro que estou a escrever, um biografia romanceada sobre a escritora sueca Selma Lagerlöf ( 1858-1940)
Maio 2018
https://nwt.se/sunne/fb-noje-kultur/2018/05/24/hon-skriver-om-selma-lagerlof

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Uma das minhas participações no festival BlueMetropolisBleue – Montreal ((Quebec) Canadá em Abril de 2018
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DESCOBRIR LISBOA – uma entrevista feita pela revista Lisbonne-idee
http://www.lisbonne-idee.pt/p4203-descobrir-lisboa-com-escritora-cristina-carvalho.html
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Entrevista Antena 2 feita por Luís Caetano – Julho 2017
https://www.rtp.pt/play/p1299/e298539/a-ronda-da-noite
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Entrevista à revista FOCUS SOCIAL – conduzida pela jornalista Marta Vaz
http://www.focussocial.eu/entrevista.php?id=77
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No Casino Figueira, em 27 de Janeiro 2015
https://www.facebook.com/video.php?v=869432596436275&set=vb.166590943387114&type=2&theater
Entrevista para o Diário de Coimbra – em 27 de janeiro de 2015
– No Portugal actual, qual é o lugar da poesia e da literatura?
Cristina Carvalho – Não sei se é, mas no cenário das artes e da educação desde a infância, devia ter o primeiro lugar. Devia ser muitíssimo considerado, aplaudido e incentivado. As crianças deviam aprender a ler bons textos, bons livros, bons poemas para um dia, em adultos, saberem e quererem ler bons textos, bons livros, bons poemas. Só assim, depois de conhecerem o melhor, teriam, se quisessem, a informação do pior sem causar grandes danos.
Observo, na literatura actual – e não vale a pena separar e colocar a poesia num outro lugar, porque estamos a falar de literatura – muita gente, muitos escritores e muitos poetas de excelência. Os melhores têm, de facto, visibilidade. Os vulgares e os piores, não têm. Nem vale a pena ter. Há bons escritores, há bons poetas, há bons editores, há bons leitores, há muitas livrarias. Somos um país pequeno e esta geração de leitores a que eu pertenço – refiro-me aos nascidos nos anos quarenta ou anos cinquenta do século passado – não é uma geração de grandes leitores. Nessa altura do nosso crescimento e conhecimento, os livros eram poucos e eram caros. Havia pouco de tudo. Hoje há muito de tudo. As populações – a começar pelas crianças, insisto, têm de ser ensinadas a ler bons livros. Porque há muito lixo por aí, muito mesmo!
– Teve uma infância “de muitos exemplos e poucas palavras”. Do que conhece da infância hoje, em Portugal, inclusivamente através da presença em muitas escolas de norte a sul, que retrato faz?
Cristina Carvalho – Repare, os meus contactos nas escolas não são com a infância e sim com o despertar da adolescência, com gente muito nova, mas já entre os 13 e os 16, 17 anos. Devo dizer que as impressões são as melhores! Independentemente do contacto ser estimulante, saudável e enriquecedor para ambas as partes, retiro as melhores conclusões acerca dos jovens. São cordatos, interessados, curiosos, arrebatadores. Estão no auge, nos píncaros do seu mundo que é essa mesma idade! Querem saber tudo e tudo aprendem! Haja boa vontade e compreensão. Tolerância e boa compreensão por parte de todos. E conversas! Muitas conversas! Muitas perguntas! Muitas respostas!
– Ser filha de quem é foi uma inspiração ou uma “sombra”?
Cristina Carvalho – Inspiração, não sei. Sombra, também não sei. Há muitos escritores filhos de escritores, como há muitos médicos, filhos de médicos, como há muitos advogados, filhos de advogados, como há muitos carpinteiros, filhos de carpinteiros e por aí fora. É natural – digo eu! – que uma criança com a infância que eu tive, filha de quem sou filha, tivesse alguma predisposição, inclinação, mais não seja por mimetismo, para as leituras e a escrita. Acho normal que tenha sido assim. Estranho seria se não fosse! E foi bom! Lá isso foi! Eu gosto!
– Qual é actualmente, a Pedra Filosofal de que o mundo precisa?
Cristina Carvalho – Tolerância, fraternidade, igualdade, liberdade. Várias pedras filosofais. Não faltam por aí são pedras. E preciosas, quase todas!
– É uma mulher de causas sociais. O que é que a indigna?
Cristina Carvalho – Indigna-me tudo o que é indigno. Tudo o que se podia dar e se não dá. O alheamento e a indiferença, a riqueza desmedida de uns e a pobreza desmedida de outros, a luz que só ilumina alguns e que devia iluminar toda a gente, a corrupção, a indigência moral, os interesses próprios e tudo, tudo o que vai matando a humanidade. A estupidez ao serviço dos povos com suas consequências.
– Como criadora, e mulher de liberdade, como assiste ao que se está a passar na Europa e no mundo?
Cristina Carvalho – Com terror e uma imensa sensação de impotência. Espertalhões por todo o lado. Nem sei…
– A emigração é uma realidade que não lhe é desconhecida, até como mãe. Vê-a como uma oportunidade ou um desperdício nacional?
Cristina Carvalho – A pergunta é muito oportuna, realmente! Vou responder-lhe: dos meus três filhos, só a mais velha é que está na Europa a trabalhar. E está há muitos anos por livre iniciativa e vontade. Não faz parte da onda de emigrantes à força destes últimos tempos. Os outros dois trabalham em Portugal. Mas não conheço uma única família – e conheço muitas – que não tenha, pelo menos, um filho a trabalhar no estrangeiro. Com muito boas habilitações ou poucas habilitações lá tiveram de emigrar. A situação que se vive, neste aspecto (e em outros) é impressionante, impensável! Porque, uma coisa é sair porque quer sair; outra situação é não ter outro remédio! E isso é insuportável! Para quem sai e para quem se vê forçado a deixar sair, neste caso, as famílias. Quer dizer, anda uma pessoa a estudar, a lutar, a estudar, a “treinar-se” para um ofício, seja ele qual for, e chega ao fim do período de aprendizagem, gastou-se um dinheirão – porque isto também é realidade e faz parte da vida, o dinheiro que se gasta – e bumba! Agora, tens de emigrar porque não tens lugar aqui! Emigrantes letrados e de altas classificações ao serviço de outras gentes? Está bem! Pondo de parte sentimentalismos, se calhar está bem! Enfim…
– Dos seus livros, qual o que mais a tocou? E aos seus leitores?
Cristina Carvalho – Tocam-me todos. Embrenho-me na sua escrita até me estafar por completo. São todos tão diferentes! Não sei o que lhe diga! E os meus leitores? Eu acho que os meus leitores gostam do que escrevo, senão não eram meus leitores, ou seja, eu própria, enquanto leitora de alguém, de algum escritor, leio esse escritor sempre com muito interesse. Posso gostar mais de um certo livro, mas no geral gosto muito de todos. Uma pessoa habitua-se a gostar de um escritor por várias razões. Essas razões são as que cada um sente e sabe.
– O que é que lhe falta escrever ?
Cristina Carvalho – Eu não faço ideia! Não tenho planos! Não tenho nada pensado! Só sei que gosto de escrever e que tenciono continuar a escrever, O quê, não sei. Eu nem sei nada de nada quando começo a escrever um livro, quanto mais! É claro que sei o que estou a escrever agora, mas o que vou escrever no futuro, não faço a menor ideia. Nem quero fazer!
À VOLTA DOS LIVROS com Ana Daniela Soares – entrevista
Entrevista para a revista FOCUS SOCIAL feita pela jornalista Marta Vaz em Março de 2014
Saíu on-line no dia 1 de Julho 2014 e vai sair, brevemente, em papel
http://www.focussocial.eu/entrevista.php?id=77
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Sobre “Quatro Cantos do Mundo”
Entrevista feita em directo da Feira do Livro de Lisboa em 14 de Junho 2014 por Luís Caetano para o programa “A Força das Coisas” – Antena 2
http://www.rtp.pt/play/p321/e157703/a-forca-das-coisas
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http://www.rtp.pt/play/p312/e128882/a-volta-dos-livros – Sobre ANA DE LONDRES – Outubro de 2013
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Conversas no Correntes D’Escritas – 2013
http://www.rtp.pt/play/p321/e133431/a-forca-das-coisas
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Vídeo do lançamento de “ANA DE LONDRES” a 27 de Setembro 2013
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Sobre “ANA DE LONDRES”
Entrevista na Antena 1, no programa À Volta dos Livros de Ana Daniela Soares
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Entrevista Antena 1, 11 de Março 2013, no programa À Volta dos Livros de Ana Daniela Soares
http://www.rtp.pt/programa/radio/p2499/c110506
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Entrevista a Luís Caetano no programa “A Força Das Coisas” – Antena 2 em Fevereiro de 2013
http://www.rtp.pt/programa/radio/p1140/c108278
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Sobre RÓMULO DE CARVALHO/ANTÓNIO GEDEÃO, PRÍNCIPE PERFEITO (Estampa, 2012)
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TVI 24, programa LIVRARIA IDEAL no dia 6 de Outubro 2011
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http://www.tvi24.iol.pt/programa/3494/40
*****************************************ENTREVISTA POR ANA SOUSA DIAS NA REVISTA PÚBLICA DE 22 DE AGOSTO DE 2010
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Sobre MARGINAL – LER + LER MELHOR com Teresa Sampaio
Sobre A Casa das Auroras
Entrevista ao programa Diário Câmara Clara da RTP 2, Maio de 2011
Entrevista ao programa Ler + Ler Melhor, RTPN, Maio de 2011
Entrevista a Luís Caetano no programa A Força das Coisas, na Antena 2 ( Maio 2011)
http://tv1.rtp.pt/multimediahtml/progAudio.php?prog=1140
Sobre O Gato de Uppsala
http://gatoduppsala.wordpress.com/entrevista/
http://gatoduppsala.wordpress.com/entrevista-audio/
Sobre Nocturno, o romance de Chopin
Programa Ler + Ler Melhor, RTP N, Agosto 2011
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ENTREVISTA À STORM MAGAZINE
(Maio de 2010)
O sucesso de “O Gato de Uppsala” ( Ed. Sextante, Lisboa, 2009)fez renovar o entusiasmo e interesse pela obra de Cristina Carvalho, uma autora que tem vindo a desenvolver um estilo de escrita ágil e rico em imagens e conceitos. A publicação subsequente de “Nocturno. O Romance de Chopin” (Ed. Sextante, Lisboa, 2009), cuja importância se tornou ainda mais marcante neste ano de 2010, quando se comemoram os 200 anos do nascimento do compositor polaco – ver artigo nesta mesma edição da Storm-Magazine – veio confirmar os dotes de uma escritora que se destaca no panorama literário português pela sua originalidade, consistência e grande qualidade.
Helena Vasconcelos – Por que razão decidiu começar a escrever? E quando?
Cristina Carvalho – Eu não decidi começar a escrever. Comecei. Assim como comecei a falar ou a andar ou a tomar banho sozinha ou a ir para a escola. Há coisas que se começam a fazer porque em nós, isso é natural e escrever, para mim, foi sempre tão natural como outra coisa qualquer.
HV – Teve alguma vez dificuldade em publicar os seus livros?
CC – Tive.
HV – Algum dos seus livros é autobiográfico? Transpõe para a sua escrita experiências vividas?
CC – Totalmente autobiográficos, não. Agora, que aquilo que os escritores escrevem tem muito de si, do seu fígado, do seu estômago, do seu coração, das suas vísceras em geral, isso tem!
HV – Como foi a sua experiência no JL ( Jornal de Letras)e na revista Egoísta?
CC – Foram experiências. Aconteceram essas oportunidades e eu aproveitei-as. Pequenos contos dos quais já ninguém se lembra… Mas fiquei muito orgulhosa de os ver impressos aí, em tão prestigiadas publicações!
HV – Porque esteve tanto tempo sem escrever romances e/ou contos e porque recomeçou?
CC – A vida não me proporcionou grandes voos, grandes viagens na escrita e vivi sempre com esse imenso desejo de escrever e com a imensa amargura de não ter a tranquilidade necessária para o fazer. Mas também sempre soube que, se não morresse pelo caminho, ainda havia de escrever tudo o que sempre quis. É isso mesmo que estou a fazer agora. E não digo assim: estou a tentar fazer agora. Porque eu não estou a tentar. Eu estou mesmo a escrever romances e histórias, todos os dias, todos os dias da vida.
HV – Qual a influência dos seus pais, ambos escritores – o seu pai mais do que escritor, poeta, professor, cientista?
CC – Longa resposta essa! Mas quem é que não ficaria influenciado crescendo e vivendo a três, numa casa? Pai, mãe e filha? Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Natália Nunes e a miúda? A miudita? Não vou aqui contar a minha infância, mas repare, dois adultos que trabalham, que pensam e que escrevem o dia todo. E a miúda? O que é que faz? Lê, aprende a ler cedíssimo, senta-se ao pé do seu pai ao fim da tarde e observa-o obliquamente. Ele sai com ela, a sua filha, mostra-lhe o céu da noite, mostra-lhe e fala-lhe das grandes árvores e das suas folhas e das nervuras das suas folhas, entrega na sua mão pequenina a sua grande mão e ensina-a sem falar. Com a minha mãe era diferente. Não era tão intensa, a comunicação. Mas eu também a observava. Tem que haver qualquer coisa que passa, não é? Seria estranho se não houvesse.
HV – De onde lhe vem o fascínio pelo Norte da Europa? Conte-nos como foi a sua visita à Suécia e o interesse que este País lhe suscitou?
CC – Outra longa resposta! Não posso explicar porque é que gosto do Norte! E não posso explicar porque não sei explicar! Mas gosto! Podia dizer agora uma data de coisas sem interesse nenhum para as pessoas que lerão esta entrevista. Podia dizer que todos os dias penso em certas luzes do ar, do céu, penso num certo azul, penso numa certa cor que não existe no Sul e que esse pensar me faz bem. Penso em certas aves que poisam em certos ramos nevados e em certo chão branco e fofo. Gosto do azul do frio e das labaredas coloridas das auroras boreais. Paisagens e cores que só existem em latitudes setentrionais e que me puxam, me empurram para lá. Porquê, não sei!
HV – Como chegou ao tema de “O Gato de Uppsala”? Fez muita pesquisa
CC -Numa bela tarde de Outubro visitei o Vasa Museet – Museu do Vasa – em Estocolmo, que está num parque incrivelmente bonito com tantas árvores e aquelas cores, sabe?, aqueles amarelos e vermelhos ocres do Outono sueco. Fiquei impressionada com o navio Vasa e com toda aquela história do naufrágio, ali a cem metros da costa, logo no primeiro dia, o dia que seria o da sua primeira orgulhosa viagem. Comecei a remoer, a remoer, a ouvir aquelas vozes que Garcia Lorca dizia que se ouviam e que não valia a pena perceber donde vinham mas que se ouviam mesmo e a história foi-se desenvolvendo sozinha, com um ritmo certo, muito certo, sem percalços nem perturbação de nenhuma espécie. Foi incrível. A história foi nascendo sem a mais pequena complicação. Nunca me tinha acontecido. Pesquisa, sim, fiz alguma por causa da história do barco e da vida dos marinheiros naquele tempo, em 1628.
HV – Como falaria de “O Gato de Uppsala”? Como um romance de iniciação? Como uma metáfora da existência? Como uma viagem necessária para a descoberta de nós próprios?
CC – Sim, falaria dessa história como uma metáfora da existência. Falaria deste romance como garantia da vida dos homens, dos bichos e da Natureza, dando como certa e inequívoca a ligação da Humanidade com a Natureza e só com a Natureza e todo o seu poder, desde o grão de terra ao imponderável espaço celeste.
HV – O facto de Elvis e Agnetta terem sido salvos por um gato pode interpretar-se de que forma?
CC – O Gato é um pretexto em toda a história. Porque as pessoas estão mais habituadas a ver um gato ou um cão como animal de estimação e de companhia. Por mim, podia ser um outro animal desde que fosse amigo e “portátil”, por exemplo, um esquilo, uma coruja… Qualquer animal que possa viver connosco e habituar-se à companhia de seres humanos podia ter desempenhado o mesmo papel que o Gato de Uppsala desempenhou.
HV – Ainda em “O Gato de Uppsala” o que representa o mar e o que representa o grande Vasa, o navio de guerra mandado construir pelo rei da Suécia? Porquê o deslumbramento?
CC – O mar é sempre o mar! E depois os marinheiros! Há uma frase deslumbrante duma canção dos Procol Harum que é assim – How far can sailors fly? E uma pessoa pode imaginar o que quiser a partir dum navio como este, belo, belo, cheio de estátuas magníficas e coloridas, imponente, gigantesco e eu pequena, muito pequena a querer vê-lo navegar, a ele e aos seus marinheiros mais a vida lá por dentro desse navio, a entrega total ao mar mistério e mesmo indo para a guerra, como era o caso, havia uma fantasia tão grande, mas tão grande que por vezes obrigava os homens a sonhar sem mesmo se aperceberem da aventura em que se iam meter.
HV – Acha que “O Gato de Uppsala” é uma história de amor?
CC – Acho. O Gato de Uppsala é uma história de amor. De amor e por amor aos homens e, como já disse mais atrás, de amor à Natureza. Mesmo a morte do velho Anders é uma cena de amor. É uma morte limpa e natural que causa uma dor também natural e aceitável.
HV – “Nocturno” também partiu de uma paixão, neste caso pelo compositor Fryderyc Chopin. Como foi esse enamoramento?
CC – Fryderyk é realmente uma paixão. Se o tivesse conhecido, provavelmente, seria uma paixão de pouca duração, como são todas, aliás. Mas como, felizmente, não o conheci, posso aguentar com esta carga de admiração e de transcendência por muito, muito tempo. É uma carga pesada porque é absorvente, porque, se eu quiser, posso conversar com ele através da sua música, diariamente; porque, ao ouvi-lo naqueles seus “crescendos” pianísticos inacreditáveis, também eu atinjo os picos mais inacessíveis e isso, para mim é bom. Porque Fryderyk me permite levantar voo tal como os corvos levantavam voo rente à sua janela, lá na praça onde ele vivia, em Varsóvia.
HV – Porque começou “Nocturno” pela morte do compositor?
CC – A morte é sempre um bom começo. Imagino eu. Gosto daquele quadro romântico em que estão uma data de mulheres rojadas pelo chão a chorar, umas em cima das outras; a condessa Delfina Potocka a tocar piano e a cantar docemente, baixinho, com um belo vestido de seda amarelada e umas madeixas de cabelo sedoso a escorregar pelas costas enquanto Fryderyk agoniza com o rosto húmido da transpiração e pelas lágrimas de sua irmã, Ludwicka. Esse quadro é muito bonito. Foi ele que me deu o mote para começar este romance pelo fim.
HV – Porque lhe chamou “Nocturno” e não mazurka, valsa, polonaise, impromptu?
CC – O nome Nocturno está mais de acordo comigo e com ele, Fryderyk. Tudo o que se passou de melhor na vida dele e na minha, foi de noite ou quase de noite. Além disso, Nocturno é um título que se identifica imediatamente com Chopin, não é? Se chamasse ao livro Mazurka, o romance de Chopin ou Polonaise, o romance de Chopin era muito mais forçado e até feio. Tenho que dizer que foram os meus editores que escolheram este nome – Nocturno, o romance de Chopin que eu aprovei imediatamente e aplaudi.
HV – O que a atrai mais em Chopin? O seu génio musical? A sua fragilidade? A sua curiosidade pelo mundo? A vida que levou? A sua entourage – alguns dos melhores cérebros da sua época – o facto de ter sido um exilado?
CC – O que me atrai mais em Chopin é o seu estado indefinido, ou seja, a sua permanente ambiguidade que lhe permitiu ter uma vida incrível, apesar da doença que tão cedo se manifestou e lhe modificou o carácter. Mas Fryderyk era muito feminino – é o que eu sinto, não sei se era – e tudo isso conjugado, a paixão pela música, pela sua terra natal, por Tytus Wojciechowski, por algumas mulheres e a que eu mais gosto é Konstancja Gladowska e a que eu gosto menos é George Sand, os seus lindos olhos de veludo cor de folha caída no Outono, as suas mãos magras de dedos longilíneos, até a sua tosse encantadora – como dizia a Potocka – tudo em Fryderyk Chopin me atrairia se o tivesse conhecido, o que não aconteceu pessoalmente.
HV – Colocou Chopin entre mulheres – e alguns homens. Mas as mulheres têm um papel principal. É extremamente parcial na sua visão destas mulheres – George Sand é vista como uma megera. O que nos pode dizer de Maria Wodziński, Delfina Potocka, da sua irmã Ludwika Jędrzejewicz?
CC – Aparentemente as mulheres tiveram um papel principal, sim! Aparentemente. Se ele tivesse vivido nos dias de hoje, talvez tudo tivesse sido diferente, mais natural, mais aceitável, mais compreensível por parte do público, dos seus amigos, até da família. Olhe, comigo, era de certeza! Amá-lo-ia ainda mais! Porque iria compreendê-lo totalmente e sem véus. Ele, nas suas composições literário/musicais, nos Nocturnos especialmente e nos dois Concertos para piano e orquestra, deu tudo o que tinha, deu tudo da sua alma e do seu espírito da mesma maneira que eu dei tudo de mim quando escrevi sobre ele. O seu corpo palpável só vibrava porque tocava. Tudo o resto se passava noutras zonas do incompreensível. Maria Wodzinska foi um encantamento de Verão, um encontro termal daqueles que limpam o coração, um refrescante banho mineral. Foi a seu propósito que ele escreveu o seu primeiro Nocturno, numa certa noite de Agosto em que o luar lhe preencheu, decerto, a vontade. Com Delfina Potocka nunca houve nenhum arrebatamento especial embora ela fosse muito bonita e muito talentosa. Com Sand, foi o que foi. Não vou agora estar a contar a história com Sand, não é? Com Konstancja Gladowska existiu, realmente, um verdadeiro arrebatamento físico e sentimental. Ela era muito bonita, muito inteligente e gostava muito dele. Com Ludwicka, sua irmã, era um amor sanguíneo. Ela adorava-o e ele a ela e ela esteve sempre presente quando foi necessário, quando ele era pequenino e se sentava ao piano, ela lá estava a colocar-lhe as mãozinhas sobre as teclas. Foi ela que o assistiu na morte, que transportou o seu coração contido numa urna de cristal e mergulhado em conhaque, protegido de encontro ao seu peito até Varsóvia onde ainda hoje se encontra encerrado numa coluna da Igreja de Santa Cruz. Ainda existiu uma outra mulher na sua vida, a escocesa Jane Stirling que o amou incondicionalmente. Este amor nunca foi retribuído. Mas de quem ele nunca, nunca se esqueceu e quem sempre invocou em todos os momentos da sua vida, foi Tytus. O longínquo Tytus Wojciechowski.
HV – Qual a sua opinião em relação ao facto de as mulheres terem tido uma importância decisiva no trabalho de Chopin? Ou teria ele feito o mesmo, sido o mesmo, sem elas?
CC – Não sei se as mulheres tiveram uma importância tal no trabalho de Chopin! Acho que ele teria feito exactamente o mesmo com elas ou sem elas. Da mesma maneira que todos nós fazemos o queremos fazer independentemente de estarmos apaixonados ou não. Ou será que somos mais criativos, mais exaltados, mais inspirados pelo facto de estarmos ou andarmos em estado de paixão? Acho que isso depende mesmo de cada um. Também há quem diga que a criatividade é melhor e dá mais frutos com um bom copo de vinho tinto ou com três maços de cigarros. O que eu quero dizer é que há pessoas que só por si atingem o Nirvana com a maior das facilidades sem precisar de mulheres ou homens ou vinho ou seja o que for. O seu eu é mais que suficiente. E criam! Chopin era de tal modo intenso e interiorizado que, tenho a certeza, se vivesse sozinho no mundo, compunha na mesma.
HV – O seu estilo em “Nocturno” é intenso e intimista, envolvente e arrebatado? Sente uma ligação especial em relação a Chopin?
CC – Sim. Sinto essa relação muito intensa com Chopin. Enquanto escrevi este romance, enquanto pesquisei material para o compor, interiorizei de tal modo a figura dele, a sua essência, que ainda hoje penso nele diariamente como quando estava a escrever. Foi, de facto, um conhecimento da personagem muito prolongado e muito feliz.
HV – A Polónia, país natal de Chopin, deu uma enorme importância a “Nocturno”, o seu livro, neste ano de centenário. O que tem sido feito em França, pátria de adopção do compositor?
CC – O que tem sido feito em França? Que eu saiba, nada. Mas alguém me conhece em França tirando uns parentes e amigos que lá tenho?
Então:
HV – Chopin foi um Romântico por excelência. O Romantismo como corrente artística e do pensamento, atrai-a?
CC – O Romantismo, enquanto expressão diferente da corrente racionalista, para mim é interessante, sim! Mas apenas isso. Interessante. Tem algo, para mim, de irritante que só em situações de emergência é que se pode aturar. Mas reconheço que deu ao mundo para a eternidade obras lindíssimas, poéticas em todas as artes.
HV – Costuma mostrar a primeira versão dos seus livros a alguém? Gosta de saber as opiniões de outras pessoas?
CC – A minha primeira versão é a última. Como dizia Victor Hugo, emendo é na cabeça. Quando passo ao papel, ou seja, ao computador, já não emendo quase nada. Mostro a uma ou duas pessoas, no máximo. Sim, hoje em dia, mostro a duas pessoas da minha total confiança e amizade. Sei que me corrigem com amor. É isso que eu preciso no final de cada livro, preciso de amor! Acabo-os esgotada mas, estranhamente, a rondar outra história qualquer.
HV – Algum dos seus livros foi fácil de escrever?
CC – Nenhum livro é fácil de escrever. Eu adoro escrever. É uma grande alegria para mim o facto de poder escrever e inventar ou não, histórias. Mas não é fácil. É um processo complexo, solitário e silencioso. É um estranho êxtase, um estranho estado de transe, se assim podemos dizer. Há alturas em que parece que sinto formigas a circular naquele vaivém frenético que só as formigas têm, dentro das minhas veias. Não é tarefa fácil, não!
HV – Como escreve? Toma notas? Cria uma estrutura? Ou vai seguindo a sua “corrente de consciência”?
CC – Nem tomo notas nem crio nenhuma estrutura. É conforme acordo e conforme penso naquilo que fiz na véspera. Costumo fazer assim: num dia escrevo e no dia seguinte observo o que escrevi na véspera e acrescento mais alguma coisa. E assim por diante até ao juízo final!
HV – Quais os escritores (as) que mais a influenciaram? Costuma ler com regularidade?
CC – Quando estou a escrever nunca leio nada a não ser o jornal, ao Sábado e as contas que aparecem na caixa do correio. Oiço música. Muita música. Como, felizmente, vivo nesta época digitaloinformáticointernética, auxilia-me a escrita o Youtube e os meus “fones”. Se estou sozinha em casa ponho a música altíssima, se estou acompanhada ponho os tais “fones” nos ouvidos mas sempre altíssimo. Só assim me alheio completamente da palavra – vida real. Também oiço os meus pássaros de várias espécies que vivem no meu jardim, em liberdade, evidentemente. Gosto do piar do mocho e da coruja. Tenho uma grande coruja branca a viver no ramo mais alto dum salgueiro que há aqui em casa. Tenho esta sorte! Uma sorte! Quando não estou a escrever, leio o que me apetece, normalmente releio obras que me preenchem totalmente, sendo que já li os mesmos livros dúzias de vezes. E é sempre um deslumbramento diferente. É como a música. No mesmo dia posso ouvir a mesma música cem vezes seguidas sem nunca me fartar e os pensamentos que tenho são sempre diferentes. Os escritores que mais me influenciaram? Sem nenhuma ordem, Selma Lagerlof, Julio Cortazar, Truman Capote, Karen Blixen, Edith Wharton, Walt Withman, Yeats, Boris Vian, Gabriel G. Marques, todos os escritores nórdicos sem excepção e quase todos os sul-americanos. Ingleses também. Mas mais, mais, mais Par Lagerkvist, Selma Lagerlof, Truman Capote.
HV – Qual a sua relação com a literatura portuguesa? Sente-se uma outsider? Com que autores portugueses se identifica mais?
CC – Para falar a verdade, não vou responder a essa pergunta. Somos todos outsiders quando nos encontramos a sós, connosco, não é? Ah! Eu sou o melhor! Ah! Eu sou a melhor! Ah! Sou tão diferente! E, de certo modo, não faz mal pensar isso! Mas a auto censura é absolutamente necessária e às vezes fazemo-la com tanta dificuldade, com tanto orgulho, tanta altivez! A única coisa que eu tenho a certeza absoluta é que é necessária humildade, muita humildade. Há sempre muito melhor do que nós, embora essa ideia custe a admitir. Mas há! Realmente, não me identifico com ninguém nem português nem estrangeiro. Sou eu e a minha voz. És tu e a tua voz. Acabei por responder à pergunta…
HV – O que mais gosta de fazer, na vida?
CC – Há muitas coisas que gosto de fazer na vida. Muitas! Já vivi bastante, já conheci muitas, centenas de pessoas, posso até dizer milhares de pessoas com quem falei durante a minha actividade profissional, já visitei muitos países, já escrevi livros, já tive filhos, já plantei árvores, tudo isso, esses clássicos todos e outras coisas menos canónicas, mais estranhas. Todas as pessoas, toda a gente carrega consigo segredos ou seus, ou de outros e alguns são inacreditáveis. O ser humano é absolutamente inacreditável, invulgar, estranho, difícil, empolgante, bom e mau, belo e feio, alegre e triste. O ser humano é a fonte, é a luz! Gosto de ser humana! É que podia ser um bicho, um verme, um insecto, um réptil, uma erva, uma pedra, uma gota de água, uma montanha, um vulcão, um furacão, uma ameaça da natureza mas não! Sou um ser humano com tudo o que de mistério ele encerra. Com tudo o que posso dar e que é a minha própria luz. Poderão dizer, quem ler esta entrevista, – mas tu, humana, és a maior ameaça da Natureza!
Sim, respondo eu. Sou. Mas também sou a única capaz de a compreender e de a amar e de me sentar numa pedra, ao fim do dia, cruzar os braços no colo e deixar-me olhar, olhar para a fina fita do horizonte tentando compreendê-la no seu todo incompreensível. Nunca chegaremos lá, mas somos os únicos que tentamos alcançá-la, a Natureza, porque todos os outros, já lá estão.
HV – Quais os seus próximos projectos?
CC – Os meus projectos são alguns, são. Escrever ao ritmo que estou a escrever. Para o próximo ano, 2011, espero que saiam mais dois livros, um que estou a escrever e que vou acabar em Setembro e um outro que escrevi em 2008. Tenho muitas histórias na cabeça, muitas mais.